<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1487678397534022904</id><updated>2011-04-21T16:00:53.158-07:00</updated><title type='text'>Regime de Saturno</title><subtitle type='html'>um caderno de estórias de Paul Serran.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://pauloserran.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1487678397534022904/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pauloserran.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Paul Serran</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>4</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1487678397534022904.post-1260067355702970631</id><published>2008-01-22T06:54:00.000-08:00</published><updated>2008-01-22T11:43:00.242-08:00</updated><title type='text'>Quim</title><content type='html'>1&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Colocar o desespero para trabalhar a meu favor&lt;/em&gt;. Esse era meu novo objetivo.  Examinada de perto, a situação era mesmo gravíssima; mas isso não seria mais problema nenhum: afinal de contas, a partir dessa minha nova lógica, quanto pior a situação, melhor.  Essa visão revolucionária de mundo dependia da minha capacidade de inverter as polaridades de todos os pequenos aspectos e mínimos detalhes da vida. Uma por uma, eu havia de virar todas aquelas cartas de mau-agouro, revelando nos reversos uma fortuna sorridente e um caminho iluminado entre as pedras.&lt;br /&gt;Meu nome é Joaquim. Se quiseres me chamar de Quim, não reclamo - mas acho que para essas intimidades, primeiro devias pagar-me um chope no garotinho. Mas continuo: meu nome é Quim, e depois de dar uma &lt;em&gt;busca e apreensão &lt;/em&gt;em todos os meus bolsos, gavetas e cantinhos em geral eu cheguei à impressionante quantia de sete reais e vinte centavos. E no dia seguinte seria Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rótulo da garrafa me hipnotizava. O conhaque de alcatrão São João da Barra é famoso pelos refrões insistentes nas transmissões do futebol pelo rádio. Nunca gostei do sabor, e as ressacas que ele proporciona são brabas como as famosas rebordosas dos vaqueiros do velho oeste que eu tanto adorava nos livretos da infância. &lt;br /&gt;&lt;em&gt;Aventuras que o jornaleiro, seu Manuel, deixava que lesse - desde que não os marcasse com mão suja, ou os esgarçasse abrindo as páginas em demasia. Manuel ensinou-me a manusear um livro com cuidado, com carinho. Era d’o Porto, e acreditava piamente na leitura como alavanca do progresso: costumava dizer que quem não lê “já está fodido de saída”. Eu lia e lia - atento à advertência - sentado no banco de concreto ao lado da banca: o bem vencia o mal com um revólver numa mão e uma dose de gim na outra... [Mas toda leitura não me tirou da linha de fogo da vida.]&lt;br /&gt;...A velha tia Camila, encurvada e pálida, ensinou o pouco francês que era possível naquela turma semi-alfabetizada. O sucesso era sempre a canção Alouette, que ela era obrigada a deixar-nos cantar toda aula. – Je te eplumerait ton cou  - e tome gargalhada dos moleques! Ela era nossa vizinha, e quando morreu acabei herdando sua coleção de romances melosos, bobalhões, no entanto bem construídos - em suma viciantes - e aprendi o francês na marra, meio escondido, aflito que eu pudesse ser apanhado lendo sobre as escapadelas da condessa se Y, as insaciáveis amantes do abade de W... &lt;br /&gt;Quando meu pai açougueiro descobriu que eu era melhor com as mesóclises do que desossando um porco, e que preferia a companhia de Casimiro de Abreu à de meus irmãos e irmãs, sacou o cinto de couro cheio de disposição e alegria. Futuro do subjuntivo, para ele, curava-se na base da porrada. Oh! Que saudades que tenho/Da aurora da minha vida... No cu, pardal! Minha infância era um inferno temperado por fugazes leituras à luz fria dos postes de iluminação pública...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol às duas da tarde amolecia o asfalto de um trecho da Joaquim Silva que, à força de inúmeras e sucessivas reformas e recapeamentos, mais parecia uma colcha de retalhos acinzentados e desbotados. Periquito, sentado no meio fio, espetava a massa amolecida com um palito de madeira que apanhara do chão, e que ainda guardava alguns fiapos do salsichão da véspera.  O menino enfiava e puxava o palito, formando pequenas ondulações concêntricas no pavimento a partir do &lt;em&gt;umbilicus mundi&lt;/em&gt;, que ele eriçava com seu eixo.  Periquito tinha fome, mas não pensava no assunto. &lt;em&gt;Chorar de fome é coisa de menina&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;Larica atravessou a rua com ar de desprezo. Ela afetava detestar o irmão mais novo - nada mais natural, afinal, os problemas começaram na família por volta da época que ele nasceu. A primogênita costumava dizer que o jovem Ezequiel era um &lt;em&gt;filho de Urubu Baleado&lt;/em&gt;: apelido que ela tentava fazer colar, mas que não colava. O menino Ezequiel das Chagas Silva já nascera com o amor desmedido pelos periquitos do avô, espremidos em gaiolinhas penduradas do lado de fora do barraco multicor, espremido este por sua vez nas profundezas de uma ruela do bairro da Saúde. &lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Se eu tivesse perguntado o que Periquito queria de Natal, tenho certeza que respondia: “um saco de alpiste para alegrar a passarada do Vô”. Mas eu não perguntei, é claro – sete reais e vinte centavos não pagam sequer uma imitação de Ceia de Natal, que dirá presentes.)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A magrela Larica continuou, com os olhos rasos d’água, o seu caminho rua acima rumo à feira-livre na Conde de Lajes, para espremer uma xepa, tentar arranjar algo pra tapear o vazio no estômago. Do alto da sua pré-adolescência, ela não tinha vergonha de chorar de fome. Nem eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É difícil dizer quando começou minha queda rumo à sarjeta. Enquanto lecionava para as crianças do município a vida seguia medíocre, porém honrada.  Fácil é lembrar quando a demissão veio – foi nos idos de 1994 - mas não tão fácil identificar o anterior ponto de virada no qual a vida embicou para o caos. &lt;br /&gt;&lt;em&gt;(No inverno de 94, o cometa Shoemaker Levi chocou-se com o planeta Júpiter numa hecatombe cósmica, mais potente que milhões e milhões de Hiroximas; o Brasil voltou a erguer a Copa do Mundo, comandado pelo mais odiado dos sete anões; e eu quase fiquei rico - mas a égua Fredegunda quebrou a pata na reta final do Grande prêmio Onze de Julho, chocando o Hipódromo da Gávea e destruindo minhas esperanças de ser um apostador bem-sucedido - pois há quem seja, e não são poucos. Porque não posso ser um deles? - perguntei-me sem obter resposta. Fredegunda foi sacrificada naquela mesma noite, pelo veterinário que fez seu parto, e meu sonho de grandeza hípica morreu com ela.) &lt;/em&gt;O conhaque de alcatrão São João da Barra é uma bebida forte, ruim pra burro, dose pra leão, mas é também um bálsamo do esquecimento; quanta coisa ruim ele apagou da minha vida...&lt;br /&gt;Das memórias confusas que esse período me deixou, uma nunca se esvaeceu: Larica (ainda a criança Maria das Neves) pequenina, pequerrucha mesmo, perguntando com uma voz chorosa: &lt;em&gt;Pai, a mamãe morreu&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que dizer da mãe de família que dá no pé?  Duma &lt;em&gt;mamãe&lt;/em&gt; que &lt;em&gt;puxa o barco&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;canta pra subir, sai fora, chega nessa &lt;/em&gt;– em suma, da meretriz obscena que abandona marido e filhos pequenos? Provavelmente o mesmo que diríamos de um pai fujão desses tão comuns por aqui. O nome dela não será mencionado, pois merece o esquecimento – embora tenha insistido em reaparecer na história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um par de setes é uma &lt;em&gt;mão&lt;/em&gt; ridícula - e pôquer é um jogo do diabo. Qualquer um com metade de um cérebro operante &lt;em&gt;pedia mesa&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;entubava&lt;/em&gt; o prejuízo.  Mas não eu, eu precisava perder tudo e mais um pouco antes de recobrar a consciência. Tudo mesmo, incluindo dinheiro do aluguel, o da passagem e mesmo a roupa do corpo. &lt;br /&gt;O olhar assustado do pequeno Ezequiel na primeira noite que dormimos ao relento é outro detalhe que lobotomia nenhuma vai apagar de minha consciência culpada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era preciso conviver com aquela malta de maltrapilhos - com visual &lt;em&gt;rastafari&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;hippie&lt;/em&gt;, vendendo bugigangas e artesanato, cheirando cola, fumando maconha, bebendo cachaça, fedendo todos eles como gambás. Cada vagabundo, mendigo, imigrante ou desabrigado, uma colônia de pulgas e piolhos. Todos se reproduzindo como coelhos: &lt;em&gt;crescei e multiplicai a sua miséria&lt;/em&gt; parecia ser o único mandamento seguido à risca. &lt;br /&gt;E a inesgotável pivetada? Todos &lt;em&gt;tirando a maior onda&lt;/em&gt; de morador de rua, quando a gente sabia muito bem que muitos tinham casa em Parada de Lucas ou Honório Gurgel... Cada moleque desses é um retrato de um lar partido, fraturado. Era de tirar o fôlego, e fazer até mesmo com que a gente se esquecesse dos próprios problemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tentava sem muito sucesso manter a minha família minimamente unida em meio às baganas e as ratazanas. Sim, morávamos na rua, mas ainda nos lembrávamos do nosso último banho, e nunca deixávamos de tomar um quando a situação se oferecia. &lt;br /&gt;Pois foi no potente chuveiro do &lt;em&gt;bar do Amaral&lt;/em&gt; (gentileza e cortesia do garçom Josué), saboreando a alegria perdida da higiene pessoal, que a revelação se fez; uma clareza de raciocínio que garantia: &lt;em&gt;o desespero é meu único aliado&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A salvação me encontrou deitado em estado comatoso sob os arcos da Lapa. Abri os olhos: o turista francês disse bonjour, e apontou a teleobjetiva de sua Leika para mim. Mesmo acordando, eu consegui murmurar &lt;em&gt;Allons Efants de La Patrie/Le jour de gloir est arrivée&lt;/em&gt;; enquanto exibia ao diafragma de sua máquina a minha pobre verga. &lt;em&gt;Mon nom est Quim, Bo-Te-Quim&lt;/em&gt;! Eu berrei com voz empastelada enquanto urinava na direção dele.  Mas o cara era enviado do santíssimo; pois largou a máquina, cheio de uma boa vontade digna de frade capuchinho para alguém que acabara de quase ser aspergido pela urina de Le miserable. &lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Duzentos reais para ele era merda, mas me colocava de pé, num pequeno quartinho perto do passeio público – bem, um depósito, na verdade: no terceiro andar de um sobrado ocupado. Pagar aluguel a invasor: esse é o retrato do Rio. Era um lixo, mas eu tinha saído da sarjeta, sem a mínima intenção de voltar.)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bigodão gaulês era ameaçador, contrastando naquele rosto bonachão. Explico para ele meu problema básico: &lt;em&gt;transformar o desespero em vantagem&lt;/em&gt;, fazer, em suma, com que trabalhe a meu favor. Na parede do restaurante uma pequena placa verde oferecia em caracteres brancos &lt;em&gt;Punheta de Bacalhau à Alentejana&lt;/em&gt;. Meu redentor falava português com sotaque lusitano e levava um mês para completar cada frase.&lt;br /&gt;- O desespero é o vinagre produzido a partir do suave vinho da esperança; portanto quem nunca adoçou os lábios nesse néctar nunca há de amargar o vinho acre do desespero... &lt;br /&gt;- Muito bem dito – acenei ao garçom incrédulo para que servisse o terceiro chope e adoçasse de vez meus lábios, antes que o gringo cansasse de pregar e pagar. Percebi na hora que o cara era um professor de alguma coisa. Nós nos reconhecemos pelo tom pomposo com que recitamos os velhos autores – assim, como se fossem pérolas que urdimos de improviso.&lt;br /&gt;- Quem desespera com um evento é um covarde...&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;(meu silêncio magoado foi afogado em chope da Brahma)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- Mas por outro lado, aquele que tem esperança pela condição humana é um tolo!&lt;br /&gt;- Concordo com a segunda parte!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morando (nos escondendo) no depósito, duzentas pratas renderam bastante. O Natal chegou ainda a tempo de enfatizar a inutilidade dos meus sete últimos reais. Larica e Periquito pressentiram o fim da &lt;em&gt;bonança&lt;/em&gt;, a proximidade da tempestade – e cada um, à sua maneira, foi procurando se virar o melhor que podia. Já aprenderam rápido que não devem depender do &lt;em&gt;pai&lt;/em&gt; para muita coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escadaria do Convento de Santa Teresa já é famosa - mundo afora - pela maravilhosa cobertura de ladrilhos em mosaicos, executada pelo chileno Selarón.  Quando ele acaba, recomeça a trabalhar naquele colorido lance de escadas. &lt;br /&gt;&lt;em&gt;Se essa rua, se essa rua fosse minha/ eu mandava, eu mandava ladrilhar&lt;/em&gt;... Periquito conhece cada desenho daqueles em detalhes, pois fica sentado nos degraus por horas a fio como quem lê um longo e interessante livro. Tão imóvel e concentrado fica o garoto nessas contemplações, que já aconteceu de assustar muita gente, como se fora uma aparição. Um bêbado chegou mesmo a rolar uns cinco degraus praguejando contra o &lt;em&gt;canhoto&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;Neste dia em especial, ele observava uma silhueta de gestante africana recortada em negro contra um fundo amarelo e vermelho. Aquilo parece querer dizer alguma coisa, algo muito pessoal, algo especialmente relevante para ele. Mas o pequeno Ezequiel não consegue decifrar exatamente o quê. Com o palito ele esburaca um pequeno canteiro onde uma flor fenecia no calor sufocante. Em outros lugares da cidade, era Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sujeito chega de Minas Gerais com uma mão na frente e outra atrás, achando que por aqui ele vai faturar um montão de artistas de TV, mas é claro que não vai: então ele tem a idéia errada – violentar uma mulher, qualquer uma, de preferência alguma bem novinha.  Aí, depois de provar do fruto roubado, nada mais o satisfaz.&lt;br /&gt;O nome dele era Kleberson, ou Cleidson, alguma imitação de nome gringo dessas que os semi-analfabetos mineiros tanto adoram. Eu é que não vou apurar o nome certo, pois ele não merece.  O &lt;em&gt;prego&lt;/em&gt; limpava a unha do dedão do pé com um canivete de camelô &lt;em&gt;Made in China&lt;/em&gt; onde a bandeira de suíça havia sido impressa com as cores invertidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeira providência para bancar meu desespero: subi o morro. A missão era conseguir uma ferramenta adequada. Sim, um &lt;em&gt;cano&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;trabuco&lt;/em&gt;, uma &lt;em&gt;peça&lt;/em&gt;, um &lt;em&gt;oitão&lt;/em&gt;, um &lt;em&gt;pau-de-fogo&lt;/em&gt;. E não é que o gerente da boca era meu ex-aluno?  Costumava ser Flavinho, agora era conhecido como &lt;em&gt;Navalha&lt;/em&gt;. Tive que cheirar várias carreiras e tomar várias cervejas no decorrer de toda uma tarde. Sempre atento para não chamá-lo de Flavinho. &lt;br /&gt;Ao saber que o &lt;em&gt;mestre&lt;/em&gt; ia andar &lt;em&gt;trepado&lt;/em&gt; por aí, com intenções criminosas, a reação do rapaz foi de puro júbilo. Ele me conseguiu um revólver por cento e cinqüenta reais, e ainda por cima ele deixava que eu fizesse um &lt;em&gt;test-drive&lt;/em&gt;. Empenhei minha palavra de que - no mais tardar - em uma semana apareceria por lá para saldar a dívida. Minha palavra era o suficiente para ele. Agradeci meu &lt;em&gt;bem sucedido&lt;/em&gt; pupilo e desci com cuidado para não dançar com os homens da lei logo de primeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kleberson (ou seria Deividson?) nem viu o que o atingiu; o berro que ele deu foi a parte mais assustadora para Larica, muito mais do que o estupro em andamento. Ela se recompôs como pode e saiu correndo escada acima, enquanto o &lt;em&gt;prego&lt;/em&gt; tombou, bermuda arriada, barraca armada, sangrando pelo rabo ainda espetado pelo palito escurecido. &lt;em&gt;Foge, Periquito&lt;/em&gt; - ela gritou; e realmente o invisível espectro vingador também não tinha ficado para conferir, descendo a colorida escadaria como quem voava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Copacabana tem quem goste, mas é longe demais, é gente demais, e pra chegar até a princesinha do mar só esbarrando em dragões da maldade e santos guerreiros.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(As gravuras nas paredes e tetos dos restaurantes da minha infância: Netuno e uma hierarquia de serias e tritões e peixes, peixes, baleias e tubarões; as estátuas de São Jorge e da Virgem, e de Iemanjá, as lojas de artigos de umbanda, cada açougue, boteco, padaria, lavanderia, cada loja com seu santo de proteção; o bloco “Boca Seca” com suas camisetas onde bocarras se abriam num esgar terrível; o pavilhão nacional tremulando no forte do Leme, imponente, inalcançável.)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Minha primeira presa foi um senhor caquético, saindo do banco todo satisfeito. Que covardia, nem precisava de arma para isso! Quase oitenta reais, sendo que dez em moedas de cinqüenta centavos.  Com capital de giro, podia passar ao verdadeiro jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Turista sueca é das coisas mais lindas que há. Até quando é feia é bonita. Se todo mundo por lá for mesmo bonito e saudável assim, eu não entendo porque sentiam a necessidade de viajar meio mundo para vir terminar aqui, na Avenida Atlântica, servindo de cobaia para meu primeiro assalto à mão armada.&lt;br /&gt;Enquanto eu destilava francês e imitação de inglês ela me olhava nos olhos com intensidade. Era forte como um touro, saudável, um pouco gordinha pro meu gosto, mas elegante a não mais poder. &lt;br /&gt;&lt;em&gt;Gottemburgo é um saco&lt;/em&gt;, me garantia, &lt;em&gt;e um pouco de lixo na rua não mata ninguém&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Numa escura rua lateral eu segurei o seu braço para dar o bote. Mas ela entendeu tudo errado, e ofereceu o rosto alvo e os lábios nórdicos. Não tinha tido mulher desde que aquela meretriz me havia deixado, e era presa fácil para uma dona bonitona dessas. Aquela carta virada revelou uma dama de ouros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gerda abriu os olhos. Estava revirando a bolsa dela, mas não me assustei, e, aliás, nem ela; mostrou o corpo nu e me convidou num gesto. Mostrei o revólver num sinal para que ficasse quieta, e ela sorriu. Larguei meus afazeres e deitei. Eu a maltratei um pouco, mas ela gostava, adorava, e logo voltava a dormir. Que tipo de mulher se apaixona por assaltante? &lt;em&gt;Merda de síndrome de Estocolmo&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Larica e Periquito estavam dormindo abraçados sob a marquise da faculdade.  Achavam o nosso depósito ainda mais assustador do que a rua. Acordaram felizes de me ver, assustados pela presença da loura. Não deixei que fizessem perguntas, fomos direto para o hotel mais caro em que jamais colocamos o pé. Antes de chegarmos, fiz com que vestissem camisetas bem simples, mas limpas. Bermudas jeans e havaianas igualmente imaculadas foram outra providência. Logo ficamos com uma cara de gente de bem, mas ainda assim o olhar dos funcionários nos detectou como corpos estranhos. Ela me registrou na portaria como seu &lt;em&gt;fiancé&lt;/em&gt; e a partir deste momento nunca mais fomos hostilizados pela equipe do Hotel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós que somos criaturas do impulso somos também criaturas do desespero. Agüentar aquela gringa doida era demais pro meu visual. A primeira vez que ela pediu pra transar de quatro com a arma (carregada!) apontada pra sua cabeça, eu confesso: até achei legal. Mas ela queria todo dia. É claro que a essa altura ela só me chama de Quim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subi a ladeira, desconfiado. Minha intenção era realizar meu pagamento em dia. Mas Navalha havia tirado a carta maligna. Morreu baleado, e outra facção dominava a boca. A mãe de Flavinho tinha mudado com o resto da família para Niterói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É incrível a velocidade com que Gerda consegue passaporte para toda a família. Um bom despachante e recursos ilimitados fazem milagres. Os jovens Ezequiel e Maria das Neves parecem resignados - mais do que animados - com a viagem para a Suécia. Eles se apegaram a Gerda de maneira admirável. Isso é bom, muito bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meretriz abandonou os filhos, o marido, mudou pra algum lugar e nós nunca ficamos sabendo qual, mas ao que parece tinha ótimos informantes.  Enquanto estávamos embaixo da ponte ela não mostrou o focinho, mas bastou passarmos uma semana nababescamente para ela aparecer sem avisar, acompanhada de um advogado de porta de cadeia.  Isso na véspera de nossa viagem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mais uma carta sinistra para virar&lt;/em&gt;. Negociei de maneira afável e totalmente mentirosa uma pensão substancial para a mãe fujona, e marquei uma nova reunião para dois dias depois. O juizado de menores foi outra aporrinhação incrível que só mesmo a moeda forte pode desenrolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; No portão de embarque Larica empacou e não quis ir. Periquito abraçou a irmã mais velha e os dois andaram sem olhar pra trás. Gerda ainda arriscou um tchauzinho com sua mão gordinha. Nunca mais vi nenhum deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O advogado suava embaixo dos braços, feliz com aquela batalha ganha com tão pouco esforço. A meretriz estava desconfiada: é lógico que eram amantes. Na hora de efetuar o pagamento, saquei meu novo instrumento de trabalho e atirei três vezes em cada um deles. Minha mira era muito ruim: ela até morreu a caminho do hospital, mas ele escapou com vida e mudou pro Amapá. Confesso que aquela noite dormi um sono agitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Aproveitei então para visitar Kleberson (Jefferson?) na enfermaria do hospital. Levei uma caixa de bombons de presente, mas ele não podia comer. Antes de sair desferi quatro tiros, todos na cabeça, afinal de pertinho não era assim tão difícil, com um alvo tão dócil e imóvel.  Dessa vez foi mais natural, vi que era uma coisa dessas com a qual a gente se acostuma: o chato não foi matar um cara jovem, cheio de falsas esperanças. O chato é que agora eu estava sem balas, e foi o maior problemão para arrumar mais munição.&lt;br /&gt; No telefone &lt;em&gt;Periquito&lt;/em&gt; segurou o choro, valente. Ele disse que gostava da nova vida, dos amigos, e disse também que por lá o governo manda a polícia na sua casa se você não escovar os dentes. Larica não podia falar, tinha saído com o namorado. Eu me despedi dizendo que ia ligar em breve, mas ele sabia bem que era mentira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Colocar o desespero para trabalhar a meu favor&lt;/em&gt;. Essa é minha missão de vida.  Meu nome é Joaquim. Se quiseres me chamar de Quim, já sabes, não reclamo - mas acho que para essas intimidades, primeiro devias pagar-me um chope no garotinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Rio de Janeiro, 22 de Janeiro de 2008.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1487678397534022904-1260067355702970631?l=pauloserran.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pauloserran.blogspot.com/feeds/1260067355702970631/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1487678397534022904&amp;postID=1260067355702970631' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1487678397534022904/posts/default/1260067355702970631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1487678397534022904/posts/default/1260067355702970631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pauloserran.blogspot.com/2008/01/1-colocar-o-desespero-para-trabalhar.html' title='Quim'/><author><name>Paul Serran</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1487678397534022904.post-312348981646225491</id><published>2007-08-21T19:29:00.000-07:00</published><updated>2007-08-21T19:40:58.328-07:00</updated><title type='text'>PISANTE ARTILHEIRO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Uma história real.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da primeira vez ele até contou a coisa da maneira que ela aconteceu. Mas nas versões subseqüentes, como era de seu feitio, Chiclete começou e embelezar os fatos, e – pior – a cada vez que contava a história, mais ele se colocava no centro dos acontecimentos. Não tivesse eu polidamente chamado a sua atenção para esse fato, acredito que rápido chegaria o dia em que Chiclete contaria ter ele feito o gol de bicicleta, não eu. Então acho que não custa nada botar a coisa no papel, com calma, em detalhes, para que o leitor não tenha que se contentar com a versão cascateada do meu nobre camarada.&lt;br /&gt;É preciso entender, com uma boa dose de boa vontade – Chiclete foi o único entre os muitos amigos que chegou a jogar futebol profissionalmente. É bem verdade que era futsal, na Espanha. Para os nossos padrões de pelada, era talentoso com a bola no pé, mas mascarado e francamente ineficiente, &lt;em&gt;fominha de bola&lt;/em&gt;. Na nossa galera tinha gente com mais domínio de bola, com mais potência no chute, com mais capacidade de marcação, com mais velocidade e arranque. Ainda assim vale o registro: ele foi o único futebolista profissional entre nós. Nem por isso, no entanto, foi o autor deste golaço de bicicleta no campão de terra da Lagoa, bem em frente ao Piraquê – bem em frente a mais de quinze amigos, no último segundo da partida – no dentro ou fora. Mas também, não era Chiclete que calçava o &lt;em&gt;pisante artilheiro&lt;/em&gt;. Era eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro de tudo – quase ninguém tinha nome nesse time, apenas apelidos: um time da Lopes Quintas dos bons tempos sairia jogando com Queimadão no Gol, a defesa formaria com Neném, Feibis, Piuí e Zé Milico, o meio campo com Galo, Negão e Cuquinha, o ataque podia trazer o Vela e a mim, que não tinha propriamente um apelido então virava &lt;em&gt;Paul&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Chiclete tinha vaga no time, mas não sempre, esperava a "de–fora" como qualquer um. Na verdade, craque mesmo era o Marcinho Ciroba, engenheiro e ambientalista, jogador mais importante (&lt;em&gt;most valued player&lt;/em&gt;) da Faculdade americana onde fez pós-graduação. Sim, &lt;em&gt;soccer&lt;/em&gt; amador americano é uma teta - eu imagino - mas quem sabe dizer o que é o futsal espanhol? Não eu.&lt;br /&gt;Nos dias em que eu jogava &lt;em&gt;realmente&lt;/em&gt; bem – poucos – Piuí não se continha, e me celebrava me espinafrando, dizendo que &lt;em&gt;assim eu ia ser contratado pelo Vitória de Setúbal&lt;/em&gt;!– Eu que me orgulho de minha origem ibéricas não caía na &lt;em&gt;pilha&lt;/em&gt;, confesso que adorava. Pois foi o Piuí que inventou essa estória de pisante artilheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca fui um moleque &lt;em&gt;fashion&lt;/em&gt;, acredito mesmo que o termo nem fosse usado correntemente na minha época. Se um dia você esbarrasse comigo usando camisa de botão com short adidas, deixa pra lá, eu era assim mesmo. E foi nesse sentido que um top-sider de camurça azul terminou se transformando em minha opção preferencial de calçado futebolístico. Usava o que estivesse no pé na hora em que a pelada formava. E esse sapato tinha um formato na parte dianteira que tornava excelente para chutes de peito de pé, e era duro o suficiente para eventuais bicos na bola. Pra quem jogou futebol com pedra no lugar de bola, como nós fazíamos no Divina Providência, isso era o de menos.&lt;br /&gt;Se no primeiro dia todo mundo fez questão de sacanear o maluco que estragava sapato jogando bola, nos dias que se seguiram o Piuí chamou a atenção do respeitável público sobre o aumento do meu rendimento nas últimas peladas, aumento que ele não creditava aos meus titânicos esforços – que nada – mas antes ao estranho sapato: é o pisante artilheiro.&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;pisante&lt;/em&gt;, o &lt;em&gt;Vitória de Setúbal&lt;/em&gt;, tudo isso fazia parte do folclore do Piuí. Folclore que ele ia atualizando jogo a jogo, lance a lance. Era um bom jogador, na verdade - junto com os irmãos Toni e Alexandre Borba, fazíamos uma linha que em certos dias se mostrou simplesmente imbatível. Monopolizando o campo da pracinha, derrotando Cuquinha, João Maluco, João Piranha e tantos outros. Invictos todo um fim de semana na Fazenda da Paz, mesmo enfrentando futebolistas em melhor forma atlética, como o Mauro Frejat.&lt;br /&gt;Pois foi num dourado dia teresopolitano desses que o Piuí cruzou uma bola alta demais, e piorou a emenda com o soneto, gritando: &lt;em&gt;Bicicleta&lt;/em&gt;! Pulei sem pensar, isolei a bola no rio, e quase quebrei o pescoço. Imaginem só a festa que Piuí fez: não falaria em outra coisa por semanas. Minha bicicleta seria mais um item do extenso folclore. Seria, mas não por muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pelada já estava para acabar, e o time que jogaria depois já estava adornando as traves com brancas redes, luxo que nosso time nunca sonhou em ter. Então ficou convencionado entre as equipes - aos berros - que era &lt;em&gt;dentro ou fora&lt;/em&gt;. Ou seja, quando a bola sair de campo, ou entrar no gol, a partida acaba. Isso tinha lá sua importância, uma vez que o jogo estava empatado. O Piuí deu um bico pro alto e a bola veio quadrada, repicando nos buracos do barro irregular. Apertado pela marcação, só consegui rebater a bola para cima com a cabeça. Foi quando ouvi o grito: bicicleta! Dessa vez eu estava com o pisante artilheiro e peguei de jeito. A bola descreveu uma parábola, e encobriu o &lt;em&gt;Negão&lt;/em&gt; (hoje em dia conhecido como Didil) que era um bom goleiro. Ele catou borboletas, mas não achou nada. A bola caiu no ângulo – frrrrrrr – estufando gentilmente a recém-colocada rede. Fim de jogo. Começo de lenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da primeira vez Chiclete até que contou a estória de maneira fidedigna, embora o ponto da questão para ele fosse ridicularizar os esforços do Negão ao tentar tirar a bola do gol. Eu me lembro bem porque ri às pampas, não fosse o Negão meu amigo mais antigo do JB e o cara que me aplicou dezessete balõezinhos em seqüência numa certa tarde de 1976, no playground do meu prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chope no Calamares, anos após o incidente. Piuí pergunta sobre o pisante artilheiro, eu explico que se arrebentou todo numa pelada no Maconhão, aquele campo na saída do Rebouças. Chiclete começa a contar a estória do gol de bicicleta – desta vez o resultado de um cruzamento preciso dele mesmo, após uma jogada fenomenal! Eu rio e não desmascaro a versão, sabedor que ele nada teve a ver com o lance, estava no outro time, na defesa, apenas viu a bola entrando de perto e os apuros do Negão. &lt;em&gt;Deixa o cara&lt;/em&gt;, eu penso, afinal já faz tanto tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ensaio do Suvaco do Cristo, uma década após o evento. Nonagésima cerveja na mente, no meio da zoeira, Chiclete repete aos berros pela enésima vez a estória. Desta vez, ele diz que pulou para executar a bicicleta, mas eu pulei logo antes e fiz o gol, não tão bonito quanto o dele, mas afinal não sou nenhum profissional. Eu sou obrigado a intervir, igualmente berrando, e dizer que &lt;em&gt;assim não dá&lt;/em&gt;! Ano que vem ele vai acabar contando que quem fez o gol foi ele. Ele ri, mas insiste na sua versão, então sou obrigado a rememorar tudo, nos mais mínimos detalhes – pois de nada esqueci – e apoiado pela memória reaquecida dos outros presentes ele se rende aos fatos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas só Deus sabe o que ele anda dizendo nos dias em que eu não me encontro por perto. A essa altura, já nem consto mais como participante do jogo, minha memória foi deletada daquele momento dourado do futebol amador carioca, fui apagado da foto como uma vítima de expurgo stalinista, obliterado em nome de uma nota de pé de página na carreira de um jogador de quinta categoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossas peladas juvenis também se foram, no encalço do pisante artilheiro. Transformaram-se numa oportunidade semanal para sair na porrada; numa reunião de gente barriguda e estressada, num mero objetivo aeróbico, numa chatice e numa inutilidade. Tudo que sobreviveu disso tudo foi o folclore entre os poucos que ainda se conservam amigos, aqueles que não morreram, aqueles que a vida não obteve êxito em espalhar pelo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio de Janeiro, 21 de Janeiro de 2006.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;em memória de Alexandre Fajardo, vulgo Zé Milico.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1487678397534022904-312348981646225491?l=pauloserran.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pauloserran.blogspot.com/feeds/312348981646225491/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1487678397534022904&amp;postID=312348981646225491' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1487678397534022904/posts/default/312348981646225491'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1487678397534022904/posts/default/312348981646225491'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pauloserran.blogspot.com/2007/08/uma-histria-real.html' title='PISANTE ARTILHEIRO'/><author><name>Paul Serran</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1487678397534022904.post-6417740911982977045</id><published>2007-07-11T20:57:00.000-07:00</published><updated>2007-07-11T21:07:17.638-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A EXTENSÃO IRREGULAR DE VIDA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;1&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;         Um doutor Fisher sorridente abriu a porta para o senhor grisalho que entrava. Tinha mesmo motivo para sorrir, cento e cinqüenta dólares por consulta. Conduziu-o ao divã enquanto dava uma espiada na ficha preenchida pela &lt;em&gt;eficiente&lt;/em&gt; secretária. MacCarthur, adido comercial da embaixada britânica. Oitenta e cinco anos.&lt;br /&gt;         - Queira recostar-se Senhor MacCarthur...&lt;br /&gt;         O ancião, do divã, olha para Fisher com dois olhos muito fundos emoldurados por uma cabeleira branca.&lt;br /&gt;   - Minha religião não permite que eu minta para padres ou médicos. Na verdade me chamo Sebastopoulos. MacCarthur é o nome desta minha, como direi? Encarnação...&lt;br /&gt;         “&lt;em&gt;O velhote é uma noz&lt;/em&gt;”, pensou Fisher, chegado numa tradução literal. Mas não parecia perigoso, apesar de ser certamente anglo-saxão e não parecer nada grego. De qualquer maneira o botão de emergência permanecia confortavelmente perto de seu pé direito, sob a mesa.&lt;br /&gt;         - Bem, senhor... Sebastopoulos, o que posso fazer para ajudá-lo?&lt;br /&gt;         - É uma longa história e começa em 1935. O senhor conhece bem História?&lt;br /&gt;         - Bem, sabe como é... a quantidade de informações técnicas para absorver... - tal resposta lhe valeu um olhar de reprovação daquele que Fisher considerava agora uma noz histórica. Ele adorava as histórias dos malucos, das nozes. “&lt;em&gt;Por que outro motivo eu teria essa profissão?&lt;/em&gt;”, se perguntava ele. Ninguém respondia. Era um tanto noz ele também.&lt;br /&gt;         - O fato é que, como &lt;em&gt;até o senhor deve saber&lt;/em&gt;, em 35 Mussolini invadiu a Etiópia, país africano vizinho das colônias italianas da Eritréia e da Somália. No seu Intento de restaurar o Império Romano ele aproveitava para devolver o vexame.&lt;br /&gt;         - Vexame?&lt;br /&gt;         - Sim, pois como &lt;em&gt;o senhor certamente não sabe&lt;/em&gt;, o exército italiano tinha sido batido pelo Etíope na única vitória de um exército africano sobre um europeu.&lt;br /&gt;         - Sei, mas o senhor é grego, não? Não consigo entender a relação.&lt;br /&gt;   - Sim, sou grego. Era grego. Dá na mesma, O importante é que após trabalhar como garçom, estivador, marinheiro e outras coisas, fui trabalhar como mercenário nas tropas italianas. Pagava bem, e era trabalho razoavelmente fácil. O &lt;em&gt;Duce&lt;/em&gt; reuniu duzentos e cinqüenta mil homens e equipamento pesado. Os etíopes eram mal armados, alguns usando lanças e mosquetes velhos, sem nada parecido com força aérea. Além disso, fazíamos farto uso de um gás venenoso proibido pela Liga das Nações...&lt;br /&gt;         - Em suma, um massacre... - Fisher ria por dentro. Diplomata inglês. Mercenário grego fascista. Tem de tudo. Além disso, que diabo de Liga das Nações?&lt;br /&gt;         - E logo na primeira batalha foi que eu vi o Marabú.&lt;br /&gt;         - Quem é esse? Etíope?&lt;br /&gt;      - É um pássaro. Um carniceiro com um paladar peculiar, pois apesar de voar mais alto que todos, era só um dos feridos se deitar, que lá vinham os Marabús, mais rápidos que todas as outras aves, mordiscar o sujeito ainda vivo. E para mim aquilo tinha uma aura de beleza terrível, pelo menos no primeiro momento. Só o que eu via eram mortos etíopes. E os Marabús, vertendo a morte em vida...&lt;br /&gt;      -  Faz sentido - comentário imbecil, mas é só o que consegue dizer. Algo na estória começa a o incomodar.&lt;br /&gt;      - Mas eis que sou mandado comandar os negros do nosso lado, e ainda chamavam Isso de promoção. O que é um galão no ombro quando se está em guerra? Fique sabendo que das cinco mil baixas do &lt;em&gt;Duce&lt;/em&gt; na campanha, três mil e quinhentas foram de eritreus e somalis... O fato é que sem adversários a força aérea italiana voava descansada... Descanso. Foi o nome do vinho que um certo piloto camisa negra tomou,&lt;br /&gt;      - Camisa negra... - aquilo não soava bem para Fisher,&lt;br /&gt;   -  Era apenas um vôo de correio, o avião nem carregava bombas nem nada... só que embalado pelo descanso ele vê aquela porção de negros embaixo, nem pensa duas vezes e já executa um rasante descarregando sua metralhadora,..&lt;br /&gt;      -  Não eram etíopes, era a sua companhia. Fogo amigo...&lt;br /&gt;      Agora não estava sendo imbecil. Estava sendo óbvio.&lt;br /&gt;   -  Exatamente, Uma rajada dilacerou completamente minha perna direita - disse o velho enquanto batia numa perna direita absolutamente normal.&lt;br /&gt;      Aquilo revoltou completamente o estômago de Fisher, sua cabeça latejava nas têmporas.&lt;br /&gt;      -  A sua hora acabou... - o velho parecia não ouvir, mas antes estalou os dedos esmigalhando ervas exóticas com odor intoxicante e tirou do bolso uma pequena ampulheta onde escorria uma areia fina de um vermelho muito vivo, O olhar de Fisher é atraído para o objeto e tudo em sua mente como que se anuvia.&lt;br /&gt;      -  Amputaram minha perna... - continuou o velho - fiquei uma semana em coma e tive alucinações e delírios febris. Ora via o Marabú, altivo e terrível, vertendo morte em vida, ora via o pássaro voando com a minha perna no bico... Relembrei momentos de minha vida, mas um em especial... Foi no meu tempo de Marinha Mercante, era um trabalho duro... Salvei uma vez a vida de outro marinheiro. Ele era búlgaro ou quem sabe romeno, não tinha certeza. Ele falava oito línguas, todas mal, tinha fama de falador. Quando se viu em débito comigo, disse que Ia me contar um segredo, uma canção...&lt;br /&gt;         - Sua hora acabou - repetiu Fisher, mas sua voz era um mero assobiar entre os dentes enquanto tudo que via era a areia que escorria e eventualmente vislumbrava nela asas que batiam.&lt;br /&gt;         Ele cantou, e cantando me contou que eu podia enganar a morte.., verter morte em vida... Ocupar outros corpos... e eu, voltando do sonho, me deparei como jovem MacCarthur, idealista enfermeiro da Cruz Vermelha... e logo ele era eu, pois a canção fez com que eu tomasse seu corpo...&lt;br /&gt;     Fisher sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo e verificou aterrorizado que não conseguia se mexer. A areia escorria...&lt;br /&gt;         - Abri os olhos e eu via como ele, era ele.., com um grito de terror a alma dele saltou para o vácuo. Agora é a sua vez.., estou velho e preciso de uma nova morada para minha alma.., assim, com as mãos lavadas pela confissão, verto a morte em vida e tomo seu corpo...&lt;br /&gt;         A última coisa que Fisher viu foi o velho levantar cantando e dançando e partir para cima dele. Com um espasmo seu pé apertou o botão de emergência no chão e ele desmaiou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Os olhos de Tânia começavam a arder por causa das lentes de contato azuis. O elevador parou no décimo primeiro andar (que era o último) e três homens de terno entraram. Um deles era o senhor Gallo, da sala 1125, logo Tânia foi se preparando para ouvir um gracejo. Aquele cara jovem precocemente envelhecido sempre gracejava. Quando Tânia no mês anterior tingiu os cabelos, ele veio com um “&lt;em&gt;ah agora somos louras&lt;/em&gt;”. Era o tipo de cara que parecia achar que o pagamento do condomínio daquele edifício comercial lhe facultava o direito de mexer eventualmente com a ascensorista. Fora isso, é claro, era um mistério. Ninguém parecia saber nada sobre ele. Exceto Tânia. “&lt;em&gt;Afinal tenho minhas fontes&lt;/em&gt;”, pensava ela. Ele era uruguaio e trabalhava com exportação. Pelo menos foi o que Ciro disse, e ele era garçom do restaurante aonde o Sr. Gallo ia todo fim de tarde tomar um caro conhaque que fora uma descoberta arqueológica na última prateleira. Ciro era namorado de Tânia. Ele gostava de lente de contato azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta do elevador se abriu no térreo e todos saíram. Gallo não disse nada. Parecia preocupado. Saiu com passos vagamente nervosos.&lt;br /&gt;E estava mesmo nervoso, pois carregava em seu bolso um telegrama. E nesse apenas uma expressão - Galo de briga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conhaque. Gallo já bebia agora o terceiro. Ciro, o garçom namorado/informante de Tânia previa uma gorjeta gorda.&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Hábitos. Tomo sempre conhaque aqui neste bar. É certo que a mesa é estratégica e vigia a entrada, que minha atenção é total e que minha Lugger não falha. Mas é fato. Eu venho sempre aqui. Quinze anos atrás, do outro lado do Atlântico, estaria morto. Amoleci com essa vida mansa. Mas agora devo sacudir o torpor e caçar um morto vivo&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;Gallo amassou o telegrama e guardou no bolso. Ciro viu aquilo e deduziu problemas com o fisco. ‘Caiu na malha fina”. Estava equivocado, é claro. Mas não sabia muito menos sobre Gallo do que muitas pessoas que tinham “fontes” bem melhores que Tânia. Como Ciro, muitos especulavam sobre sua origem: russo, israelense, líbio, búlgaro e até brasileiro. Gallo tinha o que ele mesmo chamava de “sotaque perfeito”, que justificava todas as versões. Seus próprios atuais empregadores sabiam muito pouco sobre ele. Sua ficha na AGENCIA é ridiculamente sumária: “egresso de serviço secreto oriental não especificado. Quinze anos no Brasil. Há dois anos repassa INFO e recruta agentes para AGÊNCIA”.&lt;br /&gt;Mas mesmo sabendo tão pouco, eles sabiam que ele era o único na América latina com cancha para deter uma &lt;em&gt;extensão ilegal de vida&lt;/em&gt;. Para deter um morto vivo, um invasor de corpos. Um vampiro.&lt;br /&gt;   Por um preço. Trezentos e cinqüenta mil euros ou quinhentos mil dólares americanos. Isso, somado às suas não poucas economias, seria suficiente para uma bela aposentadoria. Pensava nisso enquanto pagava a conta deixando ótima gorjeta para Ciro (Às vezes ele previa certo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gallo pega um táxi para casa, onde (ele sabia) o esperavam um gargarejo infernal, duas pedras semipreciosas e um propósito irredutível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No telefone:&lt;br /&gt;- Tem certeza mesmo de que está bem? - inquire a eficiente secretária.&lt;br /&gt;- Tenho... - Respondeu Fisher, mas sua voz traia momentos de inédito falsete.&lt;br /&gt;- Então como combinado eu passo por aí às onze...&lt;br /&gt;- 0K... - Sebastopoulos (agora ele era Fisher) tinha planejado uma rápida fuga com todo o dinheiro, cartões e valores que pudesse carregar na pick-up do médico, mas ele não contava com a secretária...&lt;br /&gt;Desligou o telefone e foi tomar um banho. Em sua lembrança o momento fatídico... Pulara sobre Fisher, e ao tocar-lhe penetrara em sua mente. Os seguranças chegaram rápido (quase rápido demais) e encontraram a dantesca cena: Fisher dando um urro de dor, e os dois caídos no chão. Maccarthur é levantado morto. Mas Sebastopoulos vivia!&lt;br /&gt;O urro de dor era a alma de Fisher saltando para o vácuo... ele mesmo ainda sentia a dor. Mas a batalha fora breve e fácil. Depois de medicado, “o doutor” foi levado para a casa. A eficiência da secretária adiara o seu depoimento na delegacia para dali a dois dias quando já estaria em Roma ou Acapulco.&lt;br /&gt;Andar com o novo corpo. “&lt;em&gt;Agora sei como se sente uma múmia&lt;/em&gt;...”&lt;br /&gt;A imprecisão dos movimentos. “&lt;em&gt;Tenho que domesticar este corpo&lt;/em&gt;.” Durante o banho canta uma canção de sua terra natal, enquanto faz flexões de joelho. Já arrumado descongela algo e come com prazer. "&lt;em&gt;É um bom corpo. Vai durar uns trinta e cinco anos, no mínimo"&lt;/em&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;4&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   No prédio onde Gallo morava e mantinha sua &lt;em&gt;safe house&lt;/em&gt; não havia ascensorista nem elevador. O apartamento era amplo, com um pequeno quintal, mas decorado quase exageradamente de maneira convencional.&lt;br /&gt;Mas em se transpondo a porta do quartinho dos fundos, o mundo era outro. Um telefone/secretária eletrônica/fax, um computador pessoal, um aparelho de rádio escuta e um enorme armário de aço. Três paredes são cobertas por mapas e quarta por uma abarrotada estante com livros sobre mitologia, filologia, magia, física, química, história, folclore, fabricação de venenos, joias famosas, crimes célebres, plantas exóticas - em todos os idiomas e encadernações imagináveis.&lt;br /&gt;Gallo sentou-se e ouviu os recados, entre eles um borrão sonoro em todas as freqüências que ele chama de gargarejo infernal. Conecta o telefone ao computador, chamando um programa anti-scrambler. Tira um pendrive de dentro do armário de aço: é a chave com a qual o computador vai filtrar as freqüências indesejáveis. Quinze minutos depois a mensagem era clara. Sebastopoulos-Maccarthur-Fisher no Rio. Bom, &lt;em&gt;Era um morto vivo de terceira geração, razoavelmente recente, portanto, tendo em vista que existem no mundo inteligências migrando em corpos desde a época dos reis-lagartos&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;O recado recomendava ataque imediato o que era mau, mas dois telefonemas para as pessoas certas certificaram Gallo de que “Fisher” dormiria em casa. Decidiu agir durante a madrugada.&lt;br /&gt;É o momento da concentração. Do armário de aço tirou um cordão de prata mithril com uma turmalina melancia verde e rosa. Coloca o cordão no pescoço e aninha a pedra contra o peito. Pensou em sua vida. Infância, maturidade velhice, morte. A maneira que é. Como deve ser. O corpo para a Terra. Pago o que devia, seria comida de vermes. A alma endereçada quem sabe para onde. Pensou no eterno sofrimento de uma alma expulsa no vácuo. Chorou um pouco. Lavou o rosto e tirou o cordão, acometido de um propósito irredutível.&lt;br /&gt;Todo sentimentalismo posto de lado. Coloca em sua mão direita o anel de ametista por sua alma, o ultravioleta do espectro... Agiria agora como uma força da natureza, inexorável e desapaixonadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestiu um terno preto e um colete à prova de balas. Sua Lugger, abastecida de balas de prata com cianureto, que matam instantaneamente. Protegido assim contra táticas humanas e sobre-humanas, partiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;5&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sehastopoulos nem viu o que o acertou, O pequinês da secretária poderia ter quebrado a surpresa, mas tinha sido trancado noutro quarto. Estranhamente tinha estranhado Fisher, de quem normalmente gostava.&lt;br /&gt;Um tiro no peito e outro na cabeça. Morreu dormindo, após “eficiente” porém rápida atuação. As detonações acordaram a secretária que em pânico gritava como pássaro agonizante. O pequinês no outro quarto aproveitou o embalo e latiu como se todos os ossos do mundo dependessem disso.&lt;br /&gt;Gallo saiu rápido, mas sem demasiada pressa - pois chamaria atenção. Menos de um minuto se passou desde que entrou no apartamento. Fácil e rápido, não fossem os efeitos colaterais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;6&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ciro serviu o oitavo conhaque incrédulo. Nunca o vira beber assim antes. Ainda mais depois de uma semana sumido, “&lt;em&gt;Deve ser o fisco&lt;/em&gt;”. Notou que Gallo usava um estranho anel que não parava de afagar.&lt;br /&gt;O anel. O ultravioleta do espectro, a alma. Foram sete dias e noites de febre, atormentado pelo fantasma de Sebastopoulos e por uma ave que não conhecia - um urubu maldito ou coisa que o valha. Mas salvou sua alma, por causa do anel.&lt;br /&gt;   Refeito, fora ao escritório apanharas coisas importantes, e de novo não notara a lente azul de Tânia. Aposentadoria. Era sé no que pensava. Havia, entretanto, mais do que simplesmente a febre. Começava a perceber as semelhanças suas com o morto-vivo (agora morto-morto). Também Gallo “&lt;em&gt;morrera&lt;/em&gt;” e inventara para si outra vida do outro lado do Atlântico. E tinha mais. Todo o papo de “&lt;em&gt;extensão irregular de vida&lt;/em&gt;”, ele sabia que os motivos para que ele fosse contratado para matá-lo eram outros. MacCarthur sabia demais.&lt;br /&gt;Ele também sabia demais, e iria se aposentar. Eles permitiriam? Ou o matariam? (“Podem no máximo tentar”, pensava ele). Ele sabia que aquela morte tinha a ver com o tráfico de grãos para um banco de sementes europeu. Mas isso é assunto para outra história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Publicado originalmente na coletânea:&lt;br /&gt;“Epifânia Beija o Sapo”- Editora Diadorim, 1994&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1487678397534022904-6417740911982977045?l=pauloserran.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pauloserran.blogspot.com/feeds/6417740911982977045/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1487678397534022904&amp;postID=6417740911982977045' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1487678397534022904/posts/default/6417740911982977045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1487678397534022904/posts/default/6417740911982977045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pauloserran.blogspot.com/2007/07/extenso-irregular-de-vida-1-um-doutor.html' title=''/><author><name>Paul Serran</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1487678397534022904.post-1955288910818574714</id><published>2007-07-06T22:55:00.000-07:00</published><updated>2007-07-06T23:07:35.709-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;Laranja-sangue.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mors Janua Vitae&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sábado – 9 da manhã. Cai uma chuva fina.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Quando Sid percebe que o ônibus vai bater, não dá tempo para mais nada. Segura na barra de alumínio do banco da frente e espera o impacto. O Grajaú-Leblon acerta em cheio o caminhão de frutas. Pessoas caem pelo corredor, gritos misturados ao retorcer de madeira e metal, o espatifar de vidros quebrados. O ônibus e o caminhão enganchados vão parar num muro de pedra. Com o segundo impacto, o gancho que prendia o perdurucalho do vendedor ambulante escorrega do corrimão no alto do ônibus, e cai sobre Sid, uma árvore de natal coberta de balas e chocolates. O gancho pontiagudo perfura seu pescoço bem na altura da artéria e ele cai – como que fisgado por um anzol – para debaixo da roleta.&lt;br /&gt;Deitado no chão, ele sente ainda os dedos formigarem. &lt;em&gt;Tenho que chegar ao ateliê, tenho que pintar&lt;/em&gt;... Embora sinta dor, sua atenção está na poça que se formou, mistura de seu sangue vermelho com o conteúdo do vidro de pigmento amarelo que quebrou com o impacto. A cor resultante é um laranja-sangue que é &lt;em&gt;exatamente perfeito&lt;/em&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas adoram parar e olhar os acidentes. Querem uma confirmação: &lt;em&gt;não fui eu que morri ali.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;24 horas antes. Um pátio interno na Glória.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ninguém conhece a cidade por inteiro. Mesmo que algum alucinado conheça todas as suas ruas, mesmo assim não conheceria tudo, longe disso! Precisaria também conhecer tudo o que existe por trás da muralha de prédios que delineiam as artérias de circulação da cidade. Os &lt;em&gt;miolos&lt;/em&gt; dos quarteirões, por assim dizer. Esses são mundos secretos, accessíveis às janelas dos fundos dos edifícios: muitas vezes vãos obscuros, onde pontas de cigarros e imundices são iluminadas por uma luz oblíqua.&lt;br /&gt;É num pátio interno que Sid vai se encontrar com Mônica. Andando pela rua, é só um quarteirão cinzento numa rua secundária do decadente bairro da Glória. Mas passado o portão de madeira, eis que surge um pátio espanhol cheio de plantas e bancos de madeira. Quatro prédios baixos debruçam suas janelas dos fundos para o pátio, como olhos negros nas brancas paredes.&lt;br /&gt;São nove da manhã, e Sid detesta acordar cedo. Mas no outono, a maneira com que a luz matinal incide sobre esse pátio é magnífica. Então, para fazer os esboços preliminares das pinturas de Mônica, ele acordou cedo. Um pequeno sacrifício que faz em nome da arte. Ele não está passando muito bem, sofrendo as dores de uma cirrose hepática, causada pela bebida e principalmente pela inalação da terebentina que usa como solvente nas pinturas a óleo - um grande sacrifício que faz em nome da arte.&lt;br /&gt;Mônica mora lá no &lt;em&gt;metro-goldwin-Meier&lt;/em&gt;, portanto um atraso de meia-hora não vale nem a pena discutir. Depois de chegar afobada ela coloca uma ponta de seu cabelo moreno na boca e dispara:&lt;br /&gt;- Eu não vou dar pra você assim, não.&lt;br /&gt;- E quem falou em dar, menina? Hoje eu vou desenhar você.&lt;br /&gt;- Todo mundo sabe que você come as meninas.&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Desenhar&lt;/em&gt;. Vou desenhar você. – E já está rabiscando.&lt;br /&gt;- Não vem com essa que eu não sou tão novinha assim.&lt;br /&gt;- Escuta, querida, fecha a boquinha um pouco, se não eu não consigo capturar toda essa sua beleza mal-humorada.&lt;br /&gt;- Todo mundo sabe que você pinta mulher pelada. O que eu estou fazendo aqui toda vestida?&lt;br /&gt;- Quem é esse&lt;em&gt; todo mundo&lt;/em&gt; que sabe tanto sobre mim?&lt;br /&gt;- Eu não nasci ontem.&lt;br /&gt;- Os primeiros encontros com as modelos são sempre em lugares como esse. A luz aqui é ótima, e aqui as pessoas &lt;em&gt;normalmente&lt;/em&gt; ficam menos defendidas, mais à vontade. Assim eu posso entender o seu rosto, seu corpo, postura, suas expressões faciais, tudo isso...&lt;br /&gt;E por uns cinco minutos Mônica relaxa e Sid pode esboçar um semblante mais sorridente. Mas ela não se agüenta quieta.&lt;br /&gt;- Não é que eu não queira, entendeu? Eu preciso do dinheiro. Quando é que você vai me pintar?&lt;br /&gt;- Amanhã...&lt;br /&gt;- Hoje. Tem que ser hoje.&lt;br /&gt;- Se você está precisando do dinheiro, eu posso adiantar.&lt;br /&gt;- Você é muito legal, mas &lt;em&gt;tem que ser hoje&lt;/em&gt;. Amanhã eu posso mudar de idéia.&lt;br /&gt;Sid fecha o caderno e larga o lápis. - Qual é o problema?&lt;br /&gt;- Meu namorado é capaz de matar se souber que eu fiz isso.&lt;br /&gt;- Posar nua?&lt;br /&gt;- Isso. E dar para você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Apartamento de térreo no Horto.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A enorme reprodução do &lt;em&gt;auto-retrato em Saint Remy 1890&lt;/em&gt; domina a parede oposta às janelas. Sid está em pé, misturando as tintas em sua mesa multicolorida; o chão cheio de folhas amareladas que o vento traz do quintal.&lt;br /&gt;- Os olhos de Vincent Van Gogh me perturbam e me fascinam. Eles falam comigo - eles falam com a humanidade: &lt;em&gt;Você acha que tem problemas? Em toda minha curta vida, só vendi um quadro. Vivi na miséria, me envenenei com as tintas, enlouqueci. Fui traído por um amigo, cortei a orelha para presentear a rameira que ele roubou de mim. As gralhas na plantação me atormentam. Dei um tiro de espingarda na testa, e agonizei dois dias inteiros antes de morrer.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Mônica está largada num sofá, com um copo de vinho pendendo displicente da mão. Doida para tirar a roupa. Sid conversa, adia.&lt;br /&gt;- Eu trabalho com um marchand da tradicional família Koch. Ele tem um gosto convencional que comunica bem com o paulistano endinheirado médio. Conseguiu mesmo encaixar um quadro meu numa galeria em Lisboa. Furreca, mas uma galeria européia, não menos! Neste exato momento, do outro lado do Atlântico, tem um turista japonês tirando uma foto do meu quadro.&lt;br /&gt;- Uma mulher pelada.&lt;br /&gt;- Naturalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Depois que ela se foi.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sid pinta nus porque eles vendem. Sua real paixão é pintar peixes. Um tipo de natureza morta pós-moderna que ninguém compra - mórbidos e inquietantes. Ele escolhe o pescado na peixaria, às cinco da manhã, e faz com que lhe entreguem em casa. Ele não gosta muito do cheiro de peixe. &lt;em&gt;Ficar cheirando a peixe é um sacrifício que não estou disposto a fazer em nome da arte.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Agora é ele que está nu, pintando o &lt;em&gt;trisotropis microlepis&lt;/em&gt; e tentando esquecer as coxas de Mônica. Ela cheirava muito melhor. Mas ele sabe, intui que a sua verdadeira vocação está ali naquele badejo morto, fresco, de olhos vidrados. Quanto a Mônica, sente que falhou. Não no sexo, mas na pintura. Talvez ela seja bonita demais, gostosa demais, talvez ela seja verdadeira demais para caber numa pintura dele. Com certeza tantos outros pintores darão conta daquela mulher. Ao menos aquele badejo atlântico é um objeto à sua altura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meia noite – hora aberta.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisas terríveis acontecem à meia noite. Ele sente as mãos formigarem. Sabe que está inspirado - é uma sensação inebriante, ele anda leve, pisando em nuvens. Sabe também que a sensação, que pode durar umas 48 horas, deixa em seu rastro uma depressão de igual duração. Se isso é hormonal, psicológico ou conjunção dos astros celestes, Sid não saberia dizer.&lt;br /&gt;O telefone celular toca. É o namorado de Mônica. Ele é um sujeito sem meias palavras. O recado é simples, enunciado repetidamente e aos berros: &lt;em&gt;eu vou te matar, filho-da-puta&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tânatos é filho da noite e irmão do sono. Arisco, insensível e impiedoso. Traz um ser humano entre as mandíbulas.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sábado, nove e meia da manhã. Ambulância em alta velocidade.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade é mesmo linda vista de uma maca. &lt;em&gt;Comamos e bebamos que amanhã morreremos! Ensinar a morrer é também ensinar a viver - morrer só porque não se pode evitar é muito triste. Tenho que manter viva na memória aquela cor – sim - dos olhos vidrados do badejo atlântico, os olhos severos de Vincent Van Gogh. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na chegada ao hospital, uma altercação. É o namorado de Mônica, armado e perigoso. &lt;em&gt;Ainda bem que você ainda está vivo - assim eu não preciso assassinar um cadáver. &lt;/em&gt;O amante traído é preso em flagrante pela PM, ostentando um sorriso de vingança. Sid morre fisgado como o peixe, baleado como Van Gogh – banhado em laranja-sangue e sonhando com a beleza escondida em um pátio interno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 2005.&lt;br /&gt;Paulo Serran&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1487678397534022904-1955288910818574714?l=pauloserran.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pauloserran.blogspot.com/feeds/1955288910818574714/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1487678397534022904&amp;postID=1955288910818574714' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1487678397534022904/posts/default/1955288910818574714'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1487678397534022904/posts/default/1955288910818574714'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pauloserran.blogspot.com/2007/07/laranja-sangue.html' title=''/><author><name>Paul Serran</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry></feed>
